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Fritz Müller: zoologia e infância

Site Fritz Muller 200 Anos, 28/04/22




Publicado recentemente, o livro “História natural de sonhos” reúne poemas infantis de Fritz Müller, organizados pelo escritor Dennis Radünz. Fascinado pela vida e obra do cientista, Radünz realizou com Lia Carmen Puff a tradução dos poemas ainda em 2004, para a produção da primeira edição. Mas esta não foi a primeira publicação sobre Müller, sobre o qual o escritor já escreveu em outras ocasiões, inclusive em matérias jornalísticas e em um ensaio acadêmico sobre “Der Minhocão”, texto científico de Fritz Müller de 1877. Agora, em sua segunda edição, o livro já está disponível para compra, reunindo poemas escritos por ele para a alfabetização de suas nove filhas. O lançamento ocorre em Blumenau, na Secretaria de Cultura, no dia 5 de maio, e em Florianópolis, no Museu Histórico/Palácio Cruz e Sousa, no dia 12. Conversamos com o organizador do livro para saber mais sobre seu trabalho, sobre o livro e sua admiração pelo naturalista. Confira a entrevista:


Conte um pouco de sua trajetória e como conheceu o trabalho de Fritz Müller. Dennis Radünz: Fritz Müller passou a viver na Colônia Blumenau em 1852, a mesma Blumenau em que nasci, em 1971, e onde o nome do naturalista alemão sempre foi presente no imaginário, como nome de biblioteca e nome de praça e onde está a sua última morada, hoje Museu de Ecologia. Então, em 1993 e 1994, período em que trabalhei como Diretor de Literatura da Fundação Cultural de Blumenau, tive mais proximidade com o acervo do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva e, nele, por uma sugestão de sua diretora, historiadora Sueli Petry, conheci a caderneta com os doze poemas manuscritos, escritos por volta de 1859, quando ele atuava como professor do Liceu Provincial de Desterro (agora Florianópolis). Sempre fui fascinado pela sua vida-obra, tanto que no centenário de morte, em 1997, publiquei no caderno Anexo (de A Notícia) um texto-homenagem, intitulado “Aprendiz de seres”, e em 1999, no Conselho Editorial da Editora Cultura em Movimento da Fundação Cultural de Blumenau (eu o presidia e éramos conselheiros Lauro Bacca, Marcelo Steil, Sueli Petry e Vilson Nascimento), o primeiro título que aprovamos foi “Fritz Müller: reflexões biográficas”, reunindo cinco textos de referência histórica. Vivendo na Ilha de Santa Catarina desde 2001, voltei a esses manuscritos “esquecidos” e em 2004, finalmente, passados 145 anos, os poemas que ele escreveu para alfabetizar em alemão as nove filhas foram publicados no livro que organizei e que, não tendo título, batizei “História natural de sonhos/Naturgeschichte von Träumen”.

Como foi o trabalho de tradução dos poemas? DR: O primeiro problema foi estabelecer o texto definitivo dos originais, em poemas manuscritos e compostos em uma variação linguística do idioma alemão do século XIX com muitos brasileirismos e termos nativos – paca, jararaca, gambá etc. Naquela fase, a ajuda dos admiradores de Fritz Müller, como Johann Memming, Wilfried Krambeck e Klaus Hering, foi decisiva. Iniciei o projeto já em 1999, mas ficou “hibernando”, até que conheci Lia Carmen Puff – tradutora do conto “Uma enteada da natureza” (1932), da escritora blumenauense de língua alemã Gertrud Gross-Hering – e trabalhamos por três meses, um poema por semana, nos reunindo na Biblioteca da UFSC. Lia fez uma primeira tradução literal de todos os textos e, juntos, fomos descobrindo equivalências sonoras e jogos de rimas e, principalmente, os ritmos na língua-alvo, o português. Ouça um exemplo no poema “Mamoeiro e tamareira”. Mein Blüthenduft / Durchwürtzt die Luft / Und lockt zum süssen Honigmahl / Den Kolibri mit flücht’ger Schwinge, / Die farbenprächt’gen Schmetterlinge, / Und luft’ge Mücken ohne Zahl, na tradução mais literal – “O meu perfume floral / No ar flutua / E convida a um banquete de mel / O beija-flor de asas velozes / E as borboletas de cores fortes / E alegres insetos do céu” – e na versão final, mais “musical”: “O perfume de minhas flores / espalha no espaço odores / e convida ao banquete de mel / o beija-flor de asas vibrantes / e as borboletas de cores voejantes / e os alegres mosquitos do céu”. O conhecimento da língua de Lia Puff, que é doutora em literatura alemã, captou a “alma” dos poemas e a minha experiência na escrita de poemas ajudou a “vestir a alma” em português, língua que Fritz considerava um ”latim de ossos quebrados”. E, afetivamente, quero rememorar dona Tula, Gertrud Mayr (1925-2018), bisneta de Fritz Müller que foi atriz em Berlim e com quem declamei seus poemas no lançamento da primeira edição em Blumenau, em 2005. Ela foi a maior entusiasta dessa tradução e a ela dedicamos a “edição do bicentenário”.

Como foi a repercussão da primeira edição do livro "História natural de sonhos" e o que representou traduzir o naturalista? DR: Pela tradução, nosso livro recebeu em 2005 o selo “altamente recomendável” da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, uma subseção da International Board on Books for Young People. E sua primeira edição foi um dos livros “mais bem vendidos” de Santa Catarina, imagino que pelo conjunto da obra, com as 12 ilustrações belíssimas da artista Jandira Lorenz, criadas na técnica wicinanki (papel recortado) e valorizadas pelo desenho gráfico de Vanessa Schultz, e a transversalidade dos poemas, que mesclam fauna, flora, ecologia, língua alemã, poesia, história brasileira e cultura da infância. Na época, em uma crônica de jornal, a escritora catarinense Eglê Malheiros pareceu resumir nosso “História natural de sonhos”: “Importante e belo. Um livro que é um objeto de arte… Uma alegria para os olhos e um refrigério para a mente”. Mas, para além do reconhecimento de público e crítica, organizar esses poemas até então desvalorizados, traduzi-los e publicá-los significa tornar de novo presente o conhecimento profundo que Müller tinha da Mata Atlântica e das culturas da América. Um exemplo? Na tradução de “Mamoeiro e tamareira” preferimos o substantivo mais usual beija-flor, mas ele escreveu Colibri (Kolibri, no original alemão), o termo que nos aproxima de um pássaro sagrado para toda a cultura dos Andes. Teria sido aleatório? Talvez. Mas a vocação de linguista que ele relatou em cartas nos ensina a ler “Kolibri” com índice do espaço natural e cultural independentes de território ou nação.

O que os leitores podem esperar da edição do bicentenário? Como será o lançamento? DR: Em 2022, quando crianças de todas idades e países são fascinadas por literatura e cinema de fantasia – pensemos na zoologia mágica de “Os animais fantásticos e onde habitam”, de J. K. Rowling –, a simples enumeração de títulos dos poemas de “História natural de sonhos” nos convida a um espaço e tempo tão próximos, mas tão estranhos: mamoeiro e tamareira (Mamãobaum und Dattelpalme); pica-pau (Specht); paca; tartaruga (Schildkröte); jararaca; vaga-lume (Leuchtkäfer); gambá; formigas (Ameisen); animais marinhos (Seetiere); cavalo-marinho (Seeperdchen); peixinho e água-viva (Fischlein und Qualle) e gaivota (Möwe). Para as crianças do século XXI, aliás, a luta pela vida no meio ambiente – às vezes fatal, porque Fritz Müller atravessou os poemas de Evolucionismo – tem o valor de uma lição sobre a natureza e de uma cultura da infância mais vivida, talvez mais realista, tendo a luta pela sobrevivência como seu maior tema. Imaginemos Fritz Müller e as suas filhas na grama, em círculo, lendo os doze poemas em voz alta... Teremos lançamentos presenciais em Florianópolis e Blumenau, no decorrer do ano, e, por enquanto, as vendas estão concentradas no site www.editoranave.com.br. Uma obra rara, esse “livro-presente” de Fritz Müller reúne arte, meio ambiente, fábula, e o lemos para celebrar Fritz e todos aqueles que estudam a vida e recriam a sua beleza.

Sobre o organizador Dennis Radünz nasceu em Blumenau/SC (1971) e vive em Florianópolis. Publicou o livro-ensaio “Roça barroca: mundos torrentes” (2021), os livros de poemas “Exeus” (1996, 2ª edição em 1998), “Livro de Mercúrio” (2001), “Extraviário” (2006), “Ossama: último livro” (2016, 2ª. edição em 2018) e “Sonívia” (2020) e uma antologia das crônicas semanais no jornal Diário Catarinense, “Cidades marinhas: solidões moradas” (2009). Mestre em Literatura (UFSC), ministra desde 2014 cursos de escrita literária por todo o país e publicou dezenas de livros como editor da Editora Nave, com destaque para “Gente alemã / Deutsche Menschen” (2020), coleção de cartas organizada em 1936 por Walter Benjamin, com tradução de Daniel Martineschen.