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A arca de Noé

Livro de Vinicius de Moraes completa 50 anos

como referência da poesia para crianças


por Dennis Radünz


Leitores indicados: Pais e professores das séries iniciais

Tempo médio de leitura: 5 minutos



A animalização de humanos e a humanização de animais têm sido, salvo engano, das principais estratégias do mito e da alegoria no Ocidente. De Esopo e de Homero às “Metamorfoses” de Ovídio, do “Livro das Bestas”, do catalão Ramon Llul (1232-1316), ao lírico “Bichos” (1940), de Miguel Torga, e à política “Revolução dos bichos” (1945), de George Orwell. Quando Vinicius de Moraes (1913-1980) decidiu se aproximar da in-fans (sem fala) em “A arca de Noé” (1970), recorreu ao substrato bíblico e elegeu Francisco como “poeta tutelar”. Assim, no poema “A espantosa ode a São Francisco de Assis” (publicado postumamente), ele declara a sua devoção ao protetor dos animais: “Meu são Francisco de Assis, Francisco de Assim, poverello, ou como te chame a sabedoria dos povos e dos homens / Este é Vinicius de Moraes, de quem se podia dizer - o poeta - se jamais alguém o pudesse ser depois de ti”. Com essa evocação, irreverência e senso de humor, o poeta salva da água diluviana a fauna lúdica da sua própria “arca de Noé”(1) e cria textos-chave da poesia para crianças escrita no Brasil.


Primeira edição: 1970


Eis o bestiário – o poema “A arca de Noé” introduz a série de 29 textos(2) e, em redondilha maior (heptassílabo), apresenta “Noé, o inventor da uva / e que, por justo e temente, / Jeová, clementemente / salvou da praga da chuva”, enquanto os animais são enunciados aos poucos, num efeito de gag de humor: “surge lenta, longa e incerta / uma

tromba de elefante”. Mas, na saída da arca, os casais se perfilam, “uns com raiva, outros com susto”, “lutam os bichos de pelo” e todos eles disputam lotes da terra prometida. Assim, em que pese o sol pós-diluviano (o poeta explora a oposição fônica-semântica entre a ‘arca’ e o ‘arco’, o arco-íris “da aliança”), a divisão de classes se conserva: “Os maiores vêm a frente / trazendo a cabeça erguida / e os fracos humildemente / vêm atrás, como na vida”. São uns bichos sem revolução iminente (Orwell). Supondo, no entanto, o leitor crítico, a abertura se encerra (3) com imagem apaziguadora: “a fala mansa dos bichos / na terra repovoada”.


Edições atuais

Essa primeira ‘estância’ do livro continua com uma saudação a São Francisco, o seu reverenciado, e explora o burlesco no poema “Natal”: o papagaio “gira” e “caturra” afirma que o burro mentiu ao dizer que esteve presente no estábulo de nascimento de Jesus e, como punição, leva uma ‘surra’. Dois poemas símiles, “O filho que eu quero ter” e “Menininha”, na sequência, parecem situar o horizonte de leitores desejado por Vinicius, o de crianças a quem o texto se dê com poesia e em posição paternal: “(...) fique pequenininha na minha canção (...) porque a vida é somente o teu bicho-papão”. O mundo sensível concreto da criança surge no poema que conjuga, metaforicamente, o parque de diversões e a flora – “o girassol é o carrossel das abelhas” – e se estende em “O relógio” (“já perdi / toda a alegria / de fazer / meu tic-tac”), “A porta” (“fecho tudo nesse mundo / só vivo aberta no céu!”) e “A casa”, poema tornado célebre pela composição (1974) do próprio poeta, gravada pelo grupo Boca Livre no disco de 1980(4): “Era uma casa / muito engraçada / não tinha teto / não tinha nada. (...) Mas era feita / com muito esmero / na Rua dos Bobos / número zero”.


Capas dos discos de 1980



Na segunda ‘estância’ do livro, depois do algo escatológico “Os bichinhos e os homens”, que lista insetos e ameaça o leitor de ser devorado “quando o seu dia chegar”, surge a “taxonomia” de Vinicius de Moares, do pinguim à formiga. Em “As abelhas”, a extensão das sílabas é usada como recurso eufônico e imagético – “a aaaaaaabelha- mestra” – e em “A pulga” (“com mais um pulinho / estou na perna do freguês”) esta atravessa o espaço e as línguas: “Tchau / Good bye / Auf Wiedersehen”. Usando a onomatopeia e as aliterações recorrentemente, o homo ludens Vinicius alcança os melhores efeitos em “O pato”, “O peru” e “A galinha d’angola” (com música de Toquinho e interpretação de Ney Matogrosso, no disco 1): “Coitada / da galinha / d’angola / não anda / regulando / da bola / não para / de comer / a matraca / e vive / a reclamar / que está fraca: ‘Tou fraca! Tou fraca!”


Vinicius de Moraes cita o poema “The Tiger”, de William Blake, em “O leão”, e o “ar apressado” de seu “O pinguim” (“parece o Chacrinha / lelé da cachola”) guarda semelhanças com o Coelho de Alice/Lewis Carroll. Não omite a realidade econômica às crianças, uma vez que “a foca brasileira / não tem sardinha”, e mantém a irreverência sob o regime militar – em “A porta”: “eu abro bem prazenteira / pra passar a cozinheira / eu abro de supetão / pra passar o capitão”. E memoráveis são os versos de “O pato”: “O pato pateta / pintou o caneco / surrou a galinha / bateu no marreco (...) Caiu no poço / quebrou a tigela / tantas fez o moço / que foi pra panela”. Difícil lê-los sem ouvir-lhes, na memória, a canção (de Paulo Soledade e de Toquinho, 1977).


“A arca de Noé” deixa o livro e o disco para a sobrevida no imaginário infantil brasileiro. Poemas de cinquenta anos, mas com o frescor dos cinco e seis anos de idade.



REFERÊNCIAS


MORAES, Vinícius – A arca de Noé: poemas infantis. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1991.

MORAES, Vinícius – A arca de Noé v.1. Direção artística de Mazola e arranjos de Rogério Duprat e Toquinho. Vários intérpretes. Philips, 1981.

MORAES, Vinícius – A arca de Noé v.2. Direção artística de Mazola e arranjos de Rogério Duprat e Toquinho. Vários intérpretes. Philips, 1982.


(1) “A arca de Noé é vista como modelo da salvação mediante o batismo. (...) C.G. Jung fala da arca como um símbolo do seio materno (...)”, assinala o verbete Arca, do Dicionário de Símbolos”, de Herder Lexicon (São Paulo: Cultrix, 1990). p. 22.

(2) A edição de 1991 acrescenta os poemas “O peixe-espada”, “A morte de meu carneirinho” e “A morte do pintainho”.

(3) No disco “A arca de Noé 1” (Ariola, 1980), a composição de Toquinho, datada de 1977 – que inclui o recitativo de Chico Buarque e o canto de Milton Nascimento – tem a letra alterada, em favor da simplicidade lexical e da melodia.

(4) O programa especial televisivo “Arca de Noé” (TV Globo, 1980), exibido no Dia das Crianças, celebrizou canções e poemas como “A casa”, “O pato” (Vinicius de Moraes-Paulo Soledade-Toquinho), na voz de MPB-4, e “O relógio” (Vinicius de Moraes-Paulo Soledade), gravada por Walter Franco, tornando-as “cânones” das crianças setentistas.



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