Escrita, morte-vida.
Diários com Lúcio Cardoso

ROSI ISABEL
BERGAMASCHI CHRAIM
218 páginas, 2019
ISBN 978-85-60716-31-9
Prefácio de Wladimir Garcia.
Posfácios de
Ana Luiza Andrade,
Lucia Serrano Pereira,
Maria Aparecida Barbosa,
Patrícia Peterle
Simone Zanon Möschen
Tania Rivera

 Rosi Isabel Bergamaschi Chraim é psicanalista.

Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC, mestre em Psicologia pela UFSC e especialista em Atendimento Clínico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS. Atua, desde 1994, em clínica psicanalítica. Participa da Rede Interinstitucional de Pesquisa Graphias, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Se dedica, desde 2004, ao estudo da Psicanálise e a relação com a Literatura e a Arte e, mais especificamente, desde 2017, ‘a textualidade llansoliana’, tendo como companhia a escrita de Maria Gabriela Llansol. Coordena Ateliês de Escrita e Leitura.

  

Um trecho de Escrita, morte-vida

     Um tempo que se mostra “distemporal”, como se estivesse fora do tempo ou em muitos tempos — o tempo da arte, o tempo no limiar da morte. Antonin Artaud, em A arte e a morte, escreve:

Mostrai-me a inserção da terra, a charneira de meu espirito, o horrível início de minhas unhas. Levanta-se um bloco entre mim e a minha mentira, imenso e falso bloco da cor que quisermos. [...]

 

     Ó cães, que acabastes de rolar na minha alma as vossas pedras. Eu. Eu.            Voltai a página dos escombros. Também ando à espera do celeste saibro        e da página já sem margens. Este fogo precisa de começar em mim. Este        fogo e estas línguas, e as cavernas da minha gestação [...]. Na minha               garganta procuro nomes e como que o cílio vibrátil das coisas. O cheiro          do nada, um relento de absurdo, a estrumeira da morte total...

   Lúcio fica num “entremeio” e transita. Visita os baús da memória e se encontra com uma escrita-linguagem fragilizada pelas marcas que o corpo carrega ainda como enigma — um enigma com traços de outras línguas. Línguas herdadas da linhagem materna ou paterna e que transitam como restos de sons ou de imagens que assombram como fantasmas do escrever.

Escritas-vestes que dão forma, que dão fôrma, mas que, aos poucos, como um movimento topológico, deslocam-se, deixando ver aquilo que a dor encapuza, encobre. Buscando nas experiências de vida, nos relatos míticos das histórias, fragmentos que se tecem desnodoando, desnudando e vestindo outras marcas, marcas significadas pelas palavras — por outro enredo —, causando efeitos no corpo e na posição que o sujeito que escreve assume frente a si e frente ao outro.

    Escritas diárias que se repetem, se repetem, como uma ferramenta silenciosa e cadenciada fazendo sulcos e transformando-se em uma renda tecida (um tecido de significações) a partir dos fragmentos encontrados sob as ruínas da linguagem — as ruínas da história de cada um. A história: este enredo ficcional que constitui o sujeito e, às vezes, o prende em suas próprias amarras, em seus sintomas.