Onde se amarra a terra vermelha

MARCO AURÉLIO
CREMASCO
72 páginas, 2018

Marco Aurélio Cremasco nasceu em Guaraci (PR) e reside em Campinas (SP). É autor das coletâneas de poemas Vampisales (1984), Viola caipira (1995), A criação (1997 - Prêmio Xerox / Revista Livro Aberto), fromIndiana (2000) e As coisas de João Flores (2014), do livro de contos Histórias prováveis (2007), e dos romances Santo Reis da Luz Divina (2004 - Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Jabuti) e Guayrá (2017).

Uma crônica de "Onde se amarra a terra vermelha"

LOBO

 

     Demorou a andar. Falar? Muito depois. Quase não saíamos. As pessoas o encaravam, vendo nele um ser de outro planeta. Chamava atenção por onde passava. Na ventura de alguma criança achegar-se, a mãe dessa criança logo impedia a aproximação, desdenhando. – Pode ser contagioso, filhinha. Procuramos várias escolas e os responsáveis apareciam com a pérola. – Sinto muito, porém não estamos preparados para receber o seu filho. O mundo não está preparado para o meu menino, isso sim, a começar pelo nascimento cercado de rejeição disfarçada em ternura, feito a primeira vez que o banharam e depois o envolveram em paninho cheiroso, acompanhado de comentário jocoso. – Tão bonitinho que até parece cachorrinho. E os cachorros são a paixão de meu guri. Os únicos que o aceitam; é como se Deus fizesse dos cães anjos da guarda para os rejeitados. Como se os cães O glorificassem em latidos e aos seres humanos bastassem ossos de intolerância. Após tanta procura, de remexer na escória de nossas entranhas, estampada na hipocrisia do discurso, encontramos uma escola que o aceitasse. Bem que tentaram, contudo surgia alguém, cuja existência se baseia na estupidez, para apontá-lo e escondê-lo, como se fosse ferida pútrida a ser encoberta por esparadrapo. Não! Saiba, o meu filho não é diferente. Nasceu diferente. Você construiu edifícios, viadutos e, qual Deus, fez o mundo à Sua imagem e semelhança que não reflete à de meu filho, pois ele é o reflexo que você não quer enxergar. Você cria acesso e o denomina acessibilidade, entretanto não comunga o olhar peculiar que o meu menino tem da vida. Ele é, simplesmente, a cor que não se vê no arco-íris. Ele faz parte daqueles que escalam escadas por rodas, de quem lê na sensibilidade do indicador ou digita mensagens com o movimento das pálpebras, escrevendo em linhas tortas o que apenas o seu Deus é capaz de entender. Você o rejeitou, inclusive na oportunidade de encenar a Gata Borralheira. Não havia papel para ele. Posso ser um cachorro, tia - sugeriu. Nem será necessária máscara ou fantasia - concordou, irônica, a professora. – Assim que o sapatinho couber no pé da Borralheira, você late, discreto, de felicidade. Felicidade? Como encontrá-la nos seres execrados? Nele, estava a possibilidade de ser um cão ou uma árvore a servir de consolo a um cão. No dia da encenação, pais, avós transitavam altivos e assoberbados pelo pátio da escola. Eu haveria de ter orgulho de quê, me diga? Ter um filho que se contenta e se realiza em ser cão? A história monótona transcorria normalmente: bebês nos colos das mães dormiam tranquilos; avós tricotavam e acenavam, risonhas, aos netos; pais, após litros de cerveja, aproveitavam o escurinho para cochilar. Sapato cravejado de lantejoulas. A menina, perfeita Cinderela, de pé esticado. Sua vez - ordenou a professora. Ficou calmo, como se dele brotasse a quietude que reside no coração dos tornados. Encarou a plateia e uivou: profundo, longínquo, denso, dolorido, tenso. Tão intenso a ponto de o Curupira desentortar os calcanhares, o Paranapanema deixar de buscar o rio Paraná para mudar de curso e, dessa maneira, vislumbrar o mar. A professora desmaiou. Atores correram tresloucados. Crianças choraram. Avós benzeram-se e bêbados despertaram. Desceu do palco e, com aquele andar desengonçado de querubim, veio a mim. Abraçou-me, arregalou os olhinhos venusianos e sorriu. – Viu, mãe? Não sou cachorro; sou um Lobo. O mais belo, forte e poderoso dentre todos, meu filho.

 

06/10/2011

Uma leitura de MARISA LAJOLO

RABISCOS DA MEMÓRIA

      São 26 pequenos textos. Quase nenhum ultrapassa página e meia do livro, cuja capa, em vários e gritantes vermelhos, protege as setenta folhas do volume. Seu título: “Onde se amarra a terra vermelha”. Seu autor, Marco Aurélio Cremasco. Editora Nave de Santa Catarina. Livro de crônicas, originalmente publicadas em jornais paranaenses
     Nas crônicas, diferentes viagens do cronista. Algumas, viagens literais. Outras, metafóricas. Outras, no tempo. Todas generosamente compartilhadas com os leitores, constantemente chamados para o texto. 
        E, atendendo ao chamado do cronista, o leitor se vê reconhecido nas palavras de Cremasco: “sem você está crônica não tem sentido nem valor algum” . Trata-se da última frase da última crônica, mas penso nela como aplicada a todo o livro. Talvez mesmo a “todos os livros“...
       O autor do livro é engenheiro, professor da Unicamp. E também escritor. Escritor dos bons: poeta , contista e romancista. 
       Neste seu livro, seus vários perfis talvez se expressem em rápidos toques que, ao longo dos textos, fazem delícias de diferentes leitores. Lado a lado, suas crônicas põem em cena garrafas lançadas ao mar, análise estocástica, Fernando Pessoa, física quântica, Schrödinger, álbum de família, resinas poliméricas, trombetas de anjos, aminoácidos, camadas de gelo na superfície das folhas do cafezal... um mundo, onde cada leitor encontra seu pedaço...
      Todos estes toques, em seu conjunto, tecem cenários. Se cada leitor escolhe o seu, o meu é o das pequenas cidades brasileiras. Guaraci, Santa Fé, São Sebastião do Guayrá, Bentopolis... Nos “rabiscos da memória” (título de uma crônica e, como sugere a orelha do livro, bela definição do gênero) o mapa de um Brasil perdido no tempo . 
        Neste Brasil de Cremasco, cada leitor rabisca a sua memória. A escola, o cinema com sua plateia de risadas e assobios, os jogos de futebol, as cenas de uma família que talvez só exista agora em fotografia, os sinos da igreja... Neste cenário meio empoeirado de lembranças, sobressaem figuras inesquecíveis, habitantes de qualquer cidade dos brasis profundos: a Carminha Lavadeira, o Cido Lixeiro, a dolorosa figura da mulher perseguida pela caçoada das crianças: “Cida Boba “, “Cida Boba”.

        Fazendo par com esta Cida, o menino que nasceu diferente, e demorou a falar. Na peça da escola, ele ganhou o papel de cachorro, ao qual cabia apenas um latido discreto. Mas, em vez de latir, uivou. E ao registrar o uivo profundo, longínquo e intenso com que ele substituiu o latido que lhe foi encomendado, a crônica traz para o Brasil profundo e antigo o Brasil de hoje e de todos nós. 
          E redime as cidas bobas e todos aqueles que demoraram a falar ...
          Valeu, Marco Aurélio Cremasco !

Texto publicado na página pessoal do Facebook, em 3/6/2018.