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Área de broca

LUCIANA TISCOSKI
104 páginas, 2021
ISBN 978-65-990667-6-4
Apresentação de Luciana di Leone

Prefácio de
Paulino Júnior

Luciana Tiscoski é jornalista e escritora. Mestre e Doutora em Literatura pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), com estágio em doutorado na Université Paris X - Nanterre, França, e pós-doutorado em Artes Visuais (História, Teoria e Crítica) pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina). Publicou poemas e contos em revistas e livros e ensaios e artigos sobre literatura e artes em periódicos acadêmicos. Com o coletivo de poetas mulheres Abrasabarca (Fpolis) participa dos livros "Abrasabarca" (Medusa, 2018) e "Revoluta" (Caiaponte, 2019). 

 

Vive em Florianópolis, Santa Catarina.   

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Um conto de Área de Broca

VESTIDO AMARELO

       Oito da manhã. Pontual com seu banho tomado, Maria Elvira confere a vestimenta mais uma vez. Cheirosa e bem-apanhada, grande desperdício. O vestido amarelo lhe cai bem, quase no tom da tintura de seus cabelos longos e esticados. Pela manhã já transpirando, o dia quente, modorrento e pesado como bigorna no cocuruto, ela sente o suor escorrer na dobra que as mamas formam por cima da barriga. Belas mamas ainda, sim, vultosas; um pouco caídas, mas redondas. Ela detesta quando manchas aparecem marcando a roupa. Neste calor é inevitável. Olha as mãos. Lembra-se da mãe - esmalte vermelho descascado: mão de puta. Cerração no parque. Os carros passam às dezenas, apressados e cheios de seus compromissos. Ela sonha com esses cotidianos coloridos, sonha com um emprego, as mãos das peruas nos volantes dos carros lustrosos, mãos bem-feitas, anéis que ofuscam os olhos cansados de Maria Elvira. Pensa nessas mulheres e em seu deleite ao deixarem os filhotes na escola, dar a última ajeitada nas trancinhas da menina, orientar um bom comportamento em aula, alertar a professora de uma possível gripe do pequeno. Almoço com o marido ao meio-dia. Conversas sobre o fim de semana cheio de festas de família. Compras no shopping, empregada doméstica, reunião de condomínio. 

      Uma laranja, meia laranja podre jogada pela janela de um caminhão, caminhoneiro filho de uma puta do caralho. Gritou ainda algum xingamento bem sujo, o cafajeste desgraçado, para ela, Maria Elvira, tão bem se vestiu hoje e mais uma mancha. O vestido amarelo agora já  tem a marca da laranja também. Amarelo reluzente, tão lindo. E era apenas a segunda vez que o vestia. Vira o vestido pendurado num cabide na calçada da rua onde costumava comprar seus badulaques. Logo se encantara com os babados em pontas que caíam na altura das canelas.Fora com ele até o cine pornô para o encontro marcado com o velho Inácio. Bem que imaginou um acochambro de misérias com o velho, pois sabia que ele dispunha de uma renda de aposentadoria, coisa pouca, mas e daí? Era vantagem, sim, um ajuntamento sossegado, até casa o velho tinha, e família que morava no interior. Ai, ela bem que queria visitar a família no interior, nas férias das crianças... Cuidar do velho, coser-lhe as roupas, fazer uma comidinha caseira para acalentar sua volta do dominó na praça. 

        Mas o velho Inácio morreu, assim porcamente, caiu bêbado no meio da rua justo quando vinha um ônibus na disparada. Coisa estúpida morrer atropelado com a cara no asfalto quente, o povo todo barulhando à volta do corpo, morte besta. Naquela noite, semanas atrás, Maria Elvira esperou muito em frente ao cine pornô com seu vestido amarelo. Acabou por arranjar-se com outro maltrapilho tarado e fedido, pois ainda não havia comido, o café requentado ardia na barriga vazia, e a conta da luz do barraco estava pendente. Era o último programa da noite. Tinha até tomado outro banho rápido, de corpo inteiro, banho de gato na pia no cine pornô para tirar o cheiro de suor mofado, afinal havia sido um dia inteiro de sol a pino. Tudo para o velho Inácio. Qual o quê! Outro aproveitou. Nem notou. E o cheirinho bom  do sabonete de rosas nem aparecia no ar sufocado com o bodum que emanava do sujeito. 

        Pois agora já não adianta lamentar, o dia continua quente e será longa a jornada de trabalho. Maria Elvira ainda tem esperanças de voltar cedo pro barraco, anda cansada... tanto tempo de rua, e essa coceira que não para. Tem tido umas esquisitices, outro dia mesmo ela chorou muito, um choro de vergonha, culpa. O homem que a usara não tinha carro, como vários que a visitam na rua, então ou o banheiro público ou uma moita qualquer do parque, depende da vontade do freguês. E ela fez tudo direitinho, como sempre. Ao levantar-se, limpou os joelhos da terra que grudara neles, depois limpou a boca e cuspiu um resto de esperma morno e amargo. 

        Neste momento, levantou a cabeça e seus olhos encontraram reto e cortante o olhar de um menino novinho, com seus sete ou oito anos. Ela teve certeza de que ele vira tudo, e, criança que era, já trazia no olhar um saber de reprovação, já apontava um dedo de julgamento cru, como se ela fosse feita de uma outra matéria, uma carne gosmenta que suja onde anda, suja de esperma sujo. Enquanto Maria Elvira quedava-se estática, sem saber com que olhos mirar a acusação do menino, este saiu correndo, todo bonitinho e bem-vestido, encontrou seu pai que já vinha à sua procura. De longe, desengonçada e pegajosa, sentindo-se de repente imensa e cambaleante, purulenta e condenada, ela suportou ainda o olhar de ambos. Por isso chorou, os olhos em ardência incessante. Chorou muito, mas não o suficiente. 

         Essas esquisitices, um incômodo repentino ao lembrar-se dos meninos que consolava, pois eles lhe pagavam bem: conseguiam dinheiro na sinaleira e logo corriam afoitos para o meio de suas pernas, cheios de cola, cheios de frio, cheios de raiva de homem, como se meninos já não fossem. Agora ela sentia desconforto, que coisa essa que a mãe lhe aparecia em sonho e lhe recomendava ao diabo. Tinha que morrer antes a mãe, que sina, agora a mãe via tudo lá de cima, tanto que Maria Elvira tentara esconder seu ofício. 

         Nem um freguês aí tratar de salvar o pão, isso sim. Ele lhe propõe um sonho, recheado de doce de leite. Parece bom moço, ao menos limpinho ele é. Um sonho vai bem. E ela vai com ele. Mais um sem carro. No banheiro não, ele acha que fede muito. Eles vão no chão mesmo, atrás do banheiro. Ela hoje traz uma toalhinha na bolsa, não quer maltratar o vestido. Ele vai embora bem rápido, frustrado e triste. Ela se ajeita sentada na toalha e oferece o rosto ao sol. Praia, que vontade de praia sempre nutriu, e nunca foi. Bom momento para saborear o sonho. 

           Na primeira mordida, um bom bocado do doce de leite cai no amarelo berrante do vestido ao sol. Que merda! Suor, laranja podre, ui, uma manchinha suspeita, e agora, doce de leite. Mas o sol, apesar de escaldante, apesar de reforçar todos os cheiros que exalam do corpo usado, preenche de um calor que protege, um doce torpor invade Maria Elvira. Ela sorri ao sol. Sem jeito, já não ri muito, pois lhe causam vergonha os dentes ruins. Essa é boa, pois a desavergonhada não é que tem lá seus pruridos? 

            Surgem dois meninos vindos do banheiro, um deles, o Zé Pedrinho, ela conhece desde que tinha a boca grudada numa chupeta, quase bebê de colo. Coitadinho, anda um trapo, um zumbi, cruz-credo. Maria Elvira percebe o mal, algo errado neste momento com esses meninos. O que acompanha Zé Pedrinho tem um olho quebrado ao meio e agarra firme uma faca em punho cerrado. Maria Elvira bem podia dar uma surra nestes dois. Vêm querendo encrenca, pois é o que vão levar. Ela levanta meio trôpega do sol, do torpor. Chama com voz de mãe da vida pelo nome de Zé Pedro, que se oriente, menino! Mas ela não tem muito tempo  e sua voz nem parece atravessar os ouvidos dos meninos alucinados de algo que ela não sabe dar nome. O de olho quebrado lhe golpeia certeiro o rosto. Uma placa de sangue cai no vestido amarelo. Zé Pedrinho lhe puxa os cabelos forçando sua posição de quatro. Não precisa nada disso, ela pensa. 

            Ainda tenta resistir aos golpes que seguem violentos, amargurados. Sempre foi forte, tem os braços grossos de boa mulher trabalhadeira, poderia ter enveredado pra faxina, isso sim é trabalho digno. Mas a força dela fica miúda frente aos avanços grotescos dos meninos. Maria Elvira urra de dor e humilhação. Não precisava, não precisava... Depois dos muitos açoites, muita coisa enfiada de qualquer maneira no corpo usado de Maria Elvira, ela tomba pesada no mesmo chão ainda quente do sexo feito às pressas com o homem frustrado. 

          Lembra-se então com ternura e desejos de se deslocar daquela cena, alguns dias antes, quando adormeceu no banco da praça depois de girar por um tempo de braços dados com um homem moço tão bonito e bom, meio perturbado pela mulher que o traía em terras da França com um tal de Monê. Ela se sentira rodando com ele na praça assim como se fosse uma namorada, uma moça de vida certa, e acordou coberta com o casaco dele e com cheiro de gente rica. 

          Os meninos correm enlouquecidos. Zé Pedrinho lança um último olhar pra ela e escarra exato no vestido amarelo manchado de suor, laranja podre, doce de leite, porra e sangue. Se fosse seu esse menino, Zé Pedro levaria uma boa surra depois do banho. E depois da surra, uma boa cama para no outro dia tomar seu café com leite e ir ao colégio bem descansado, pra virar homem de bem.